quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Carta pra você


E  até quem me vê lendo o jornal
Na fila do pão, sabe que eu te encontrei
(Los Hermanos - Último Romance)

Cara Graziela,

Espero que a minha carta te encontre bem, nesse dia tão importante, que é o da sua chegada no mundo.

A moça aqui é acadêmica, então a carta tem epígrafe e é muito séria. Muito séria porque trata de algo muito especial: meu encontro com você. Mas, antes disso, uma pequena digressão. Quero contar o meu caminho, do qual sim, eu já te falei muitas vezes. Mas a história tem sentido e eu só te encontrei porque a minha história é a minha. E a sua é a sua. Então vamos lá - e prepara o lencinho!

Você já era Grazielinha quando eu nasci. E eu nasci numa família bem complicada, daquelas que só mulheres compreendem: mãe bonita, morena, que conhece cara rico, que era chefe, se apaixona e não percebe um palmo na frente do nariz. Tanto não percebe que não conseguiu identificar nas ausências do cara branco e rico a possibilidade de ele ter outra família. E mamãe decide ser mãe, e é mãe solo. Mãe depressiva que cuida de filha sozinha, que passa a gravidez toda sozinha.

E cresço eu, filha única, de pai meio presente, construindo a minha vida sozinha. Mas sempre cuidada por outras mulheres e alguns outros poucos homens, e desde cedo eu aprendi que eram poucos mesmo.

Com nove anos eu já tinha corpão. E os homens percebiam o meu corpão. E um tio meu resolveu perceber demais, mais do que devia. E isso marcou meu corpo pra sempre.

Passei a me esconder. Passei a achar que meu corpo era digno de vergonha ou digno de abuso. Era digno de qualquer homem, pois eu não podia merecer muito. De relacionamento ruim em relacionamento ruim eu fui quicando. E sempre e a cada vez me sentindo pior, mais dolorida e menos merecedora.

Lá pelas tantas, já na terapia, eu fui entender o quanto essa experiência precoce, com esse tio, tinha me marcado e tinha importância. E eu pirei.

Entrei em parafuso. Sofri muito. Revivi muita coisa. Chorei demais. E a sábia Luciana, minha psicóloga, me disse da importância de compartilhar a minha vida com outras mulheres. Ela me disse: bem vinda ao barco das mulheres. E fui eu, sem muito saber como, caçar marujas pra esse barco que me assustava tanto.

E topei com um post num grupo abençoado com alguém perguntando sobre aula de dança. E vi teu comentário lá, falando das Maravilhosas. E aí começou o meu namoro.

Fucei todas as coisas que podia a teu respeito, a respeito das aulas e me examinei pra saber, pra verificar se eu tinha coragem. E demorei pra conseguir te escrever. Outras coisas ruins vinham acontecendo, meu padrinho, um dos poucos homens bons que eu conheci na vida estava em estado terminal de um câncer muito agressivo e eu estava mais sem chão do que o de costume. No trabalho as coisas não iam bem; mulheres mais velhas, maltratadas pelo machismo que nos assola, normalmente têm problemas comigo. E no trabalho a minha chefe era assim. Então era humilhação atrás de humilhação. Então eu precisava mesmo, ou pelo menos assim eu pensava, me verificar pra ver se teria forças, porque conviver com outras mulheres, que talvez pudessem competir comigo, não era algo que eu poderia suportar naquele momento.

E eu juntei meus caquinhos, coisa que aprendi desde cedo a fazer sozinha, e te escrevi. Você me chamou de “amor”, “querida” no nosso primeiro contato. E eu resolvi dar um dedinho de confiança.

Não sei se você se lembra, mas eu escolhi uma roupa qualquer pra ir pra aula de dança. Era um sábado e estava muito calor. Eu cheguei tímida, encontrei a Lelê no elevador. Mil vezes pensei em voltar pra trás, em ir pra casa, em voltar pra cama ou pra qualquer outra coisa. Foi um grande desafio aquele dia pra mim.

Assim que eu cheguei você me recebeu com um enorme sorriso, que só não é maior do que o teu coração e o teu dom de receber com amor e paciência as mulheres, as manas todas. E você deu seu texto e seu recado: ali era pra eu me amar e ali meu corpo era bonito. O nó que se formou na minha garganta era compatível com o tamanho do seu coração, pra você ter ideia. Eu quis chorar, quis chorar muito. Ninguém nunca havia dito que meu corpo era bonito do jeito que ele estava, e muito menos que o que ele produzia era bonito. Bonito era seguir as regras, ter quilos a menos e ser bailarina. Não era bonito estar como eu estava.

E o espelho, naquela aula e nas próximas, foi cruel comigo. Nos vídeos eu via o quanto eu tinha dificuldade de me olhar, de olhar pra frente enquanto fazia as coreografias. Se você revisitar esses vídeos, vai ver o quanto eu olho pro chão o tempo todo. E eu briguei muito comigo mesma pra continuar indo apesar do espelho. Acho que foi ali, naquela sala, que eu percebi o quanto eu estava mal. Percebi o quanto eu tinha me descuidado de mim… Eu não tingia mais meus cabelos, estava engordando sem parar, cortando meu cabelo com qualquer pessoa…gastando dinheiro pra ver se me sentia melhor.

E eu sempre fui forte, sabe?! Em Psicanálise, que não é o que eu estudo, o Freud fala da pulsão de vida e da pulsão de morte. A de vida é tudo que faz a gente construir; a de morte, bem…destruir. Minhas amigas sempre me disseram que eu tinha muita pulsão de vida pra conseguir sobreviver a tudo que eu sobrevivi e pra construir tudo que eu construi. Mas nada disso teria sido possível não fossem os encontros, os ambientes por onde eu pude circular e que puderam me fornecer nem que fossem fiapos onde eu pudesse me segurar.

Mas você, de coração e generosidade sem tamanho, não me ofereceu fiapos. Me ofereceu toda a linha e se pôs a fiar comigo, a con-fiar. E se pôs, talvez sem nem perceber, a me desa-fiar.  Você fia comigo e me desata, descostura.

A epígrafe que eu escolhi pra esse texto aqui, de presente de aniversário pra você, veio morar na minha cabeça enquanto eu namorava a ideia desse texto. “E até quem me vê lendo jornal/Na fila do pão, sabe que eu te encontrei”. É, Grazi…você proporcionou um divisor de águas na minha história. E todo mundo, na fila do pão, do mercado, no trânsito, na sala de aula, sabe que eu te encontrei. E não só porque eu falo - e muito - a teu respeito e das Maravilhosas, mas porque a mudança em mim é perceptível há quilômetros de distância.

Hoje eu tenho amigas que me entendem, que passam por dores semelhantes. Hoje eu amo o meu corpo, e amo tanto que nem sei se quero emagrecer! Hoje eu acordo feliz em dia que tem aula, não é tortura como fora no passado. Hoje eu quero me desafiar, quero ficar de ponta cabeça, quero ficar mais forte pra ajudar meu corpo a produzir mais. Hoje eu escolho com prazer o look do dia, hoje eu não me escondo mais. Hoje eu apareço e sorrio. Hoje eu danço pelada. Hoje eu penso em mim em primeiro lugar. Hoje eu sei que homem nenhum me merece completamente, eu é que abro concessões pros mais legais. Hoje eu fico feliz em ver que minha bunda treme, porque você me ensinou que é ela dançando comigo e aí, mesmo quando estou sozinha, não estou, porque tenho minha bunda viva. E tenho você.

Sinto muito por tudo que você sofreu na vida. Pelo tanto que seu corpinho foi maltratado. Pela morte do seu pai. Por todos os homens ruins que passaram pelo teu caminho e por todos que ainda hão de passar. Mas fico muito feliz porque foi só por o seu caminho ser o seu que eu pude te conhecer e que você pôde mudar a minha vida. E eu um pouco da sua, do meu modo, do meu jeito hoje desencucado e que serve de exemplo, exatamente por ter sofrido tudo que sofreu.

Eu te amo, mulher.

Obrigada pela acolhida, por dividir a morada, por ter paciência, por não desistir de mim e, assim, me ajudar a não desistir de viver. Obrigada por ser essa pessoa iluminada, esclarecida, que consegue ponderar até nas horas improváveis - e que, quando não pondera, tira um dia pra pensar e depois manda um baita áudio pra gente dizendo que pensou melhor e que concluiu isso ou aquilo.

Feliz aniversário, guria. E como eu já te disse uma vez, quando você postou no facebook dizendo que o corpo é uma festa…você é um festival.

Um beijo enorme,



Laiz

Tá aqui Grazielinha MUITO orgulhosa do império que construiu, toda passadinha contemplando o caminho.
*sponsored by Mama y Papa Meyer. <3

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